Quando o submetido se dá conta
da sua subserviência,
frustração
vergonha
raiva
e o desejo de vingar-se do filho da puta.
frustração
pela ambiguidade
da posição subordinada:
como há domínio,
há deixar-se dominar.
vergonha
pela falsa consciência
anterior à revelação:
Andar de joelhos,
pensar-se de pé.
raiva
pela crueldade
da lógica hierárquica
objetificada
na corda amarrada aos pés,
cujos peitos se arrastam
pelo cimento do chão
lacerando
pele,
orgulho.
e desejo de vingar-se do filho da puta:
o rechonchudo capitalista de fraque no topo do prédio
ou eu, que, faminto, estendi-lhe a mão
e pensei-me a salvo?
Maldição polissêmica da pena:
Generosidade no rechonchudo,
Subserviência no faminto,
Tempo a passar atrás de barras de ferro
ajoelhado.
domingo, 20 de setembro de 2009
segunda-feira, 1 de junho de 2009
Só um aviso:
Fiz um blog blog, pra textos outros que não poesia.
É esse:
http://oubarbarie.blogspot.com/
Mas assim, continuamos firmes e fortes por aqui.
É esse:
http://oubarbarie.blogspot.com/
Mas assim, continuamos firmes e fortes por aqui.
sábado, 30 de maio de 2009
Vida Grande
A verdade talvez seja
que o mundo ficou tão grande
que eu não posso versejá-lo.
As dores amadureceram.
Caem do pé sem estardalhaço.
A vida virou mais que cinema
ou que romance,
a vida virou A Vida,
nenhum ponto de vista dá conta.
Vida se impõe soberana
frente o que disseram ser
minha arte,
essas palavras
que nunca quiseram-se mais que
desabafo.
É o que me difere dos poetas:
não faço versos,
só tenho palavras.
Danço-as suavemente
sem técnica,
como um casal que se abraça
ao som de uma música lenta
e troca o peso do corpo
de uma perna à outra,
saindo muito pouco do lugar.
Tenho palavras,
código humano por que traduzo
os meus sentires.
Palavra,
ferramenta gráfica de comunicação
tão suculenta de manusear.
Eu gosto de desenhar letras, enunciar sílabas,
instrumentalizar o timbre da minha voz.
A vida é grande
e escrever é o doce
de que não posso abrir mão,
o ingrediente que compro no mercado
sem me importar com diabetes.
É algo de que aprendi a precisar sem depender.
A vida é grande,
de amor e tormentos que se me apresentam
e conversam diariamente comigo.
Não posso versejá-la e não o almejo.
Mas lambo os dedos se há doce,
saciando com calma meu amor pelas palavras.
Minhas palavras,
volta e meia silenciosas,
insilenciáveis.
que o mundo ficou tão grande
que eu não posso versejá-lo.
As dores amadureceram.
Caem do pé sem estardalhaço.
A vida virou mais que cinema
ou que romance,
a vida virou A Vida,
nenhum ponto de vista dá conta.
Vida se impõe soberana
frente o que disseram ser
minha arte,
essas palavras
que nunca quiseram-se mais que
desabafo.
É o que me difere dos poetas:
não faço versos,
só tenho palavras.
Danço-as suavemente
sem técnica,
como um casal que se abraça
ao som de uma música lenta
e troca o peso do corpo
de uma perna à outra,
saindo muito pouco do lugar.
Tenho palavras,
código humano por que traduzo
os meus sentires.
Palavra,
ferramenta gráfica de comunicação
tão suculenta de manusear.
Eu gosto de desenhar letras, enunciar sílabas,
instrumentalizar o timbre da minha voz.
A vida é grande
e escrever é o doce
de que não posso abrir mão,
o ingrediente que compro no mercado
sem me importar com diabetes.
É algo de que aprendi a precisar sem depender.
A vida é grande,
de amor e tormentos que se me apresentam
e conversam diariamente comigo.
Não posso versejá-la e não o almejo.
Mas lambo os dedos se há doce,
saciando com calma meu amor pelas palavras.
Minhas palavras,
volta e meia silenciosas,
insilenciáveis.
sábado, 16 de maio de 2009
Rezavida
Poesia que late dentro de mim
Impensar é uma tarefa
Desafio que arde fora de mim
Pra que algo arda por dentro
Há que haver o grito da rosa
Pulsar fora das horas
Cavalo selvagem que quebra a porteira de uma Clarice
O rio selvagem que rompe a barragem e inunda uma vila
A vida que late dentro de mim
Desata-me as fibras da pele
Em ato selvagem raiva vontade
E sai,
Toma o entorno,
Molha toda sorte de secura que prende
E vive,
E vivo.
Impensar é uma tarefa
Desafio que arde fora de mim
Pra que algo arda por dentro
Há que haver o grito da rosa
Pulsar fora das horas
Cavalo selvagem que quebra a porteira de uma Clarice
O rio selvagem que rompe a barragem e inunda uma vila
A vida que late dentro de mim
Desata-me as fibras da pele
Em ato selvagem raiva vontade
E sai,
Toma o entorno,
Molha toda sorte de secura que prende
E vive,
E vivo.
sexta-feira, 8 de maio de 2009
Hoje
Penso em dizer-me.
Escavar-me a memória
ameaça a fundação desse edifício.
Trago palavras à tona
como vazamentos de uma obra
mal-feita.
Há ferrugem nos canos
e eu vazo.
*
Há uma foto de menina
com o rosto coberto por uma pesada
maquiagem e acessórios que revelam
um dia das bruxas.
Há um sorriso engraçado;
Foto de criança faz sempre a gente rir.
Há a lembrança de uma noite jovem.
A solidão inevitável
de descobrir-se indivíduo.
Há uma muralha que envelhece
na fundação desse edifício,
incoerência arquitetônica que a vida fez.
Estruturou-me o ser,
concedeu-me o traquejo para lidar
com intempéries.
Mas em mim encerrou também tempestades,
os furacões todos em dentro.
Há solidão inevitável
em descobrir-se tristeza.
*
Eu hoje movo concreto.
Toco no tangível e vejo sonhos
inevitáveis.
Hoje eu tiro a minha tristeza
pra dançar.
Passeio com ela entre os dedos
como brincasse com uma moeda
pra me entreter e impressionar.
A velha muralha tem seus
buracos. Foi erosão de amor
que furou.
E o sol de gente que luta
com armas de afeto
penetra em profundidade
o meu edifício,
alimentando a vida que há ali.
*
Disse-me pouco.
É pouco o que há de inteligível
ainda pra mim.
Mas é tempo de ganhos
se o impossível se apresenta ao meu redor
com a intensidade luminosa com que o faz
hoje.
Escavar-me a memória
ameaça a fundação desse edifício.
Trago palavras à tona
como vazamentos de uma obra
mal-feita.
Há ferrugem nos canos
e eu vazo.
*
Há uma foto de menina
com o rosto coberto por uma pesada
maquiagem e acessórios que revelam
um dia das bruxas.
Há um sorriso engraçado;
Foto de criança faz sempre a gente rir.
Há a lembrança de uma noite jovem.
A solidão inevitável
de descobrir-se indivíduo.
Há uma muralha que envelhece
na fundação desse edifício,
incoerência arquitetônica que a vida fez.
Estruturou-me o ser,
concedeu-me o traquejo para lidar
com intempéries.
Mas em mim encerrou também tempestades,
os furacões todos em dentro.
Há solidão inevitável
em descobrir-se tristeza.
*
Eu hoje movo concreto.
Toco no tangível e vejo sonhos
inevitáveis.
Hoje eu tiro a minha tristeza
pra dançar.
Passeio com ela entre os dedos
como brincasse com uma moeda
pra me entreter e impressionar.
A velha muralha tem seus
buracos. Foi erosão de amor
que furou.
E o sol de gente que luta
com armas de afeto
penetra em profundidade
o meu edifício,
alimentando a vida que há ali.
*
Disse-me pouco.
É pouco o que há de inteligível
ainda pra mim.
Mas é tempo de ganhos
se o impossível se apresenta ao meu redor
com a intensidade luminosa com que o faz
hoje.
segunda-feira, 20 de abril de 2009
Caminho
Caminhas atento pela beirada de um rio.
A correnteza destruidora de barragens
é domínio selvagem, espaço
de sentimentos onde não cabe
a imperiosa racionalidade humana.
Teus passos vacilam.
Sintetizas a cautela que evita a queda
e o desejo profundo de permanecê-la possível.
És equilíbrio entre firmeza e torrente.
Te delicias no perigo assistido.
A beirada é o espaço eleito pelo teu corpo físico,
mas tua alma multiplica-se e passeia
pelas possibilidades.
A força violenta das águas
é torrente de sofrimento lacerante.
A força crua e latente da terra
dissimula a bruteza necessária para fazer-se
superfície aos homens.
Caminhas atento pela beirada do rio.
Tua serenidade é também forte.
Equilibra-te entre o bruto e o bruto:
tua serenidade é aflita.
A correnteza destruidora de barragens
é domínio selvagem, espaço
de sentimentos onde não cabe
a imperiosa racionalidade humana.
Teus passos vacilam.
Sintetizas a cautela que evita a queda
e o desejo profundo de permanecê-la possível.
És equilíbrio entre firmeza e torrente.
Te delicias no perigo assistido.
A beirada é o espaço eleito pelo teu corpo físico,
mas tua alma multiplica-se e passeia
pelas possibilidades.
A força violenta das águas
é torrente de sofrimento lacerante.
A força crua e latente da terra
dissimula a bruteza necessária para fazer-se
superfície aos homens.
Caminhas atento pela beirada do rio.
Tua serenidade é também forte.
Equilibra-te entre o bruto e o bruto:
tua serenidade é aflita.
sábado, 18 de abril de 2009
Azul
Pego por nostalgia
minha antiga paleta.
Está mudada:
Cores mutantes interagem
sob meus olhos curiosos.
Vivas,
conversam, correm e copulam
frente a meu ser estático –
não entendo mais a lógica cinemática
de minhas tintas.
Busco aflita pelo azul
(o azul sempre foi meu norte),
mas não o encontro
na explosão de vida tinta.
Não há azul.
O azul ciano clássico,
construtor primário
de toda cor
que mora em mim,
miscigenou-se em novidades,
casou, separou, traiu,
fez filhos e morreu.
Não há mais azul.
Não há mais.
A ausência do meu norte
e as infinitas vidas tintas que pulsam
embaralham minha vista
e amarram nó na garganta
e eu sinto medo e solidão
naquela noite recém-nascida
e rezo forte em minha mente
por amparo.
Engendra minha entranha
a aflição do sem azul.
Há que haver azul em de mim!
Há que haver azul em minha aurora.
Cogito então
que talvez seja preciso
reinventar o meu azul.
O que há de azul em Joni
Azul cruel de Clarice
Azul de mesa de bar
Azul encontro marcado,
Azul de mares profundos,
Azul que escurece no fundo,
que nos mergulha.
Azul do abaixo.
Mas o azul da camisa dele,
Azul da lagoa verde,
Azul da água em desenho,
O azul que há em aurora
é azul onde se voa.
É azul que nasce em mim,
cor mais virgem dessa paleta.
minha antiga paleta.
Está mudada:
Cores mutantes interagem
sob meus olhos curiosos.
Vivas,
conversam, correm e copulam
frente a meu ser estático –
não entendo mais a lógica cinemática
de minhas tintas.
Busco aflita pelo azul
(o azul sempre foi meu norte),
mas não o encontro
na explosão de vida tinta.
Não há azul.
O azul ciano clássico,
construtor primário
de toda cor
que mora em mim,
miscigenou-se em novidades,
casou, separou, traiu,
fez filhos e morreu.
Não há mais azul.
Não há mais.
A ausência do meu norte
e as infinitas vidas tintas que pulsam
embaralham minha vista
e amarram nó na garganta
e eu sinto medo e solidão
naquela noite recém-nascida
e rezo forte em minha mente
por amparo.
Engendra minha entranha
a aflição do sem azul.
Há que haver azul em de mim!
Há que haver azul em minha aurora.
Cogito então
que talvez seja preciso
reinventar o meu azul.
O que há de azul em Joni
Azul cruel de Clarice
Azul de mesa de bar
Azul encontro marcado,
Azul de mares profundos,
Azul que escurece no fundo,
que nos mergulha.
Azul do abaixo.
Mas o azul da camisa dele,
Azul da lagoa verde,
Azul da água em desenho,
O azul que há em aurora
é azul onde se voa.
É azul que nasce em mim,
cor mais virgem dessa paleta.
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